O mundo escuro e underground dos aplicativos para gays

 

Cronistas de Quarto - Aplicativos Gays

Esse é um assunto do sobre o qual eu queria falar há muito tempo. Algo que tem a ver com vida, desejo, expectativas, amor e sexo.

Durante alguns meses, eu me cadastrei em alguns aplicativos de relacionamento voltados para o público gay. E aí você pode colocar apps como Scruff, Grindr e Hornet. Tinder? Acho que não se encaixa na temática que eu trazer aqui. Por várias questões que vão ficar mais claras à medida que eu vou falando sobre. Só queiro deixar claro que minha crítica não é aos aplicativos. São empresas sérias que se esforçam para levar seu objetivo a milhões de usuários pelo mundo. Não, minha crítica é para o comportamento de muitos usuários dos apps. Então, aqui eu vou mostrar a você, como a grande maioria dos usuários tratam os outros nessas redes de relacionamento.

A primeira coisa que você precisa saber sobre estar nesse mundo, é que a partir do momento que você se cadastra, se torna um produto numa prateleira. Lá você é escolhido a dedo por várias pessoas com gostos diferentes que só se importam com o quanto você é gostoso. Foda-se se você é uma pessoa legal, foda-se se você tem uma história de vida bacana, foda-se, foda-se foda-se quem é você… Apenas mande suas nudes. Essa é a realidade.

 

No tempo que estive lá, vi muita gente procurando por algo sério, mas que para isso o sério precisa vir com grandes bíceps e todos os outros músculos no pacote do sonho de consumo pautado em um cara bonito.

Saí com alguns caras que queriam um relacioanamento, e até aí teve problema. Isso porque foram pessoas que criavam uma grande expectativa. Pareciam achar que viveriam cenas de cinema no estilo Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ou qualquer outro romance gay que deixe as pessoas desejando algo idêntico. Algo que só existe nos estúdios de cinema.

É tudo muito frio e robótico. Os diálogos são sempre iguais. E até quando se tenta ser diferente, as pessoas parecem não saber o que fazer, porque já esperam o mesmo diálogo de sempre.

Não quero generalizar também. É claro que vez ou outra acontece um papo realmente interessante. E daí, passamos para o WhatsApp. Onde a conversa morre e aquele sentimento de um minuto passa a ser só mais um contato sem sentido na sua agenda.

Os aplicativos também estão sendo cenário de um mercado emergente de garotos de programa que tem aumentado nos últimos meses. Algo parecido com um Easy Taxi do sexo.

É bom você ter muitas fotos se quiser encarar essa realidade. Fotos de todos os tipos, de todos os ângulos. Recomendo você fazer um book antes de se cadastrar. Aparentemente também existe uma espécie de diferença entre os gays. Hierarquia descreveria melhor, mas sendo bem sincero. Ninguém é melhor que ninguém, então essa palavra não se aplica. Existem aqueles que deixam bem claro o tipo de cara que querem, fazendo questão de escrever no perfil. Coisas como “apenas para dotados“, “não curto afeminados“, “não curto gordos“, “caras mais velhos passo a vez“. E por aí vai. Um show de hipocrisia entre pessoas de uma comunidade que tenta pregar justamente o contrário. É claro que todo mundo tem seus gostos, que cada um prefere um determinado tipo de pessoa. Mas nem por isso existe a necessidade de ofender quem não está dentro dos seus parâmetros.

Outro ponto que me deixou chocado, é o quanto muita gente perde completamente a noção de bons modos. “Manda foto pelado”, “curti“, “não curti“, você é bloqueado repentinamente, “não rola” e várias outras respostas. Eu não sei você, mas eu penso na seguinte forma: não é porque estou conversando com alguém por meio de um gadget sem ver seu rosto pessoalmente, que posso tratá-lo como eu quiser. A comunicação evoluiu, mas parece que alguma coisa se perdeu na forma como as pessoas tratam umas as outras. Se você estivesse com essa pessoa na sua frente, falaria com ela da mesma forma?

Relato de amigos, principalmente trans, também disseram que isso é algo que acontece com periodicidade. Perfis sem foto e sem informações enviando ofensas via in box.

No final disso tudo, eu que esperava conhecer pessoas legais, acabei me deparando um mundo escuro, onde seu corpo vale mais do que quem você é. De um certo modo eu fiquei triste. Porque cheguei a encontrar pessoas realmente interessantes, que pareciam ser diferentes. Mas parece que se deixaram contaminar por esse lugar. E não posso culpá-las. Passar um tempo por lá é quase uma lavagem cerebral. E algum tempo depois até eu estava falando como eles, conversando no automático, e etc.

Não crítico a procura pelo sexo, até porque já fiz uso. O que me deixa triste nisso tudo, é a forma como o relacionamento entre os usuários caminha. Como coisas ou como objetos de prazer.

Não custa ser educado. Não custa nada conversar despretensiosamente, não importa o quanto você seja bonito ou feio. Você não é obrigado a ficar com todo mundo, até porque todos nós temos nossos próprios gostos, e se alguém não faz meu tipo, é óbvio que não vou ficar com ela.

Um dia recebi uma mensagem dizendo oi. Então respondi tentando ser simpático e sair secura. A mensagem seguinte me deixo reflexivo.

Esse diálogo me fez pensar em como o padrão de beleza reflete em quem está por lá. Acho que de um jeito muito mais cruel. Agora imagine colocar alguém que não se encaixa nesses padrões em um ninho cheio de egos? Massacre.

No fim, não é um lugar para quem tem a autoestima baixa. E o que resta para essas pessoas? Se encher do próprio ego como uma forma de se defender. E aí, temos mais uma pessoa com um ego inflado.

A linha entre um boa autoestima e o egocentrismo é muito tênue.

Resumindo tudo que eu espero aqui, é que as pessoas se tratem como pessoas. Você não é mais bonito nem mais feio que ninguém. Todos são alguém atrás da felicidade, e não é um rosto bonito que vai trazê-la até você.

Agora, porquê o mesmo não acontece no Tinder? Na verdade acontece. Mas numa proporção bem menor. Porque lá você precisa usar seu perfil no Facebook, usar seu nome real. Além de mostrar amigos em comum. Tudo isso obriga as pessoas a serem… um pouco mais educadas.

Esse é um lado escuro e muito negativo desses aplicativos, mas fico feliz de saber que muitas pessoas encontraram companheiros muito especiais nesse aplicativos.

De quebra, listei os 7 tipos de caras mais comuns nesse apps.

 

Blogueiro, criador do Cronistas de Quarto, amante de chuva, música, cinema e passar horas no quarto rabiscando aventuras.

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