Eu gosto de ficar sozinho (e isso não deveria ser um problema)

Cronistas de Quarto - Comportamento

Existem algumas pessoas que adoram ficar sozinhas. Tipo eu.

E essa é uma característica minha que faz parte de algo chamado identidade. Que nada mais é do que o que faz de nós o que quem somos. Eu sempre gostei de ficar sozinho porque sempre fui muito reservado, sempre pensei muito e isso parece ser o suficiente para afastar a maioria das pessoas. E ficar sozinho sempre me ajudou a criar, planejar, concentrar e por a mão na massa. Até quando tive o meu primeiro grande relacionamento, algo que eu achei que mudaria isso em mim, esse foi um grande problema. “Eu gosto de ficar sozinho“, eu disse pra ele.


Depois de um tempo, comecei a ficar triste. As pessoas me olhavam com pena por ser assim. Será que é tão ruim assim gostar de ficar só? Um dia li essa frase em algum lugar que mudou a forma como eu encarei isso.

Não pense que gostar de estar sozinho significa que não sei me relacionar com pessoas. Eu adoro conversar, conhecer, sair e me divertir. Digamos que isso é 50% da minha identidade. A outra metade, prefere ficar no próprio mundo mesmo. E mais uma frase só deu mais razão para essa metade.

Eu entendi que tenho uma natureza solitária. Ai de quem tentar mudar isso. Como diz a música da Dani Carlos, meu mundo está fechado pra visitação. Eu sempre disse para os meus melhores amigos que eu não vou ser aquele que vai estar do seu lado o tempo todo, mas vou estar ao seu lado quando você precisar. Mas é melhor não se apegar, porque quando o dia começar e você estiver melhor, eu já terei ido embora. Mas fique tranquilo, porque eu vou estar sempre por perto pra ter certeza de que você está bem.

Estar sozinho desperta em mim  o que eu tenho de mais intenso. Um lado quase onisciente sobre tudo que eu posso me tornar. Um universo próprio de alternativas intangíveis. É como ter uma prateleira de possibilidades diante de você. Isso só me ensinou duas coisas: que eu me conheço melhor do que nunca, e que… ainda não me conheço nem pela metade.



E isso me fez ter a capacidade ver as coisas com mais clareza. Sem o ruído barulhento da presença dos outros. Mas é claro, isso sempre teve muitas consequências boas e ruins. Relacionamentos estragados e relações arranhadas. De tudo um pouco já aconteceu, e tudo que sobrou agora são coisas e pessoas que entenderam esse meu jeito. E fico feliz por isso.

Sempre achei divertido a forma como as pessoas reagiam quando tentavam me tirar de casa num sábado  a noite. Basicamente, não sou muito fã de lugares cheios de pessoas. E me tornei alguém bem reservado. Um espectador das histórias do mundo.

Eu não posso dizer que esse é o melhor jeito de se viver. Quando você mergulha dentro de você, corre o risco de nunca mais voltar para a superfície. Isso aconteceu quando tive depressão após a morte da minha irmã. Uma pessoa inteira é mais profunda do que um oceano inteiro. E quando uma tempestade de emoções se aproxima, as coisas podem se tornar muito imprevisíveis.

Mas se você é do tipo que gosta do silêncio da madrugada, dos som dos seus próprios pensamentos ecoando pelo quarto, da paz e das reflexões que só você entende e que só você cria em sua própria cabeça, eu te digo que essa é uma excelente forma de viver em um mundo cheio de horrores.

Porque só quem se sente feliz nesses momentos tristonhos consigo mesmo pode reconhecer o valor das coisas em meio ao caos da vida dos outros.



Blogueiro, criador do Cronistas de Quarto, amante de chuva, música, cinema e passar horas no quarto rabiscando aventuras.

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