Corpinho de 20, espírito de 80.

Cronistas de Quarto

Sexta-feira à noite eu não quero sair. As pessoas me chamam para balada, festas, eventos e tudo que eu consigo fazer é mover o braço para me aconchegar melhor com o edredom. Quarto com a porta fechada, luzes apagadas. Só um abajur acesso, dando aquela meia luz no ponto, ótima para dormir. Nem muito forte, nem muito fraca.

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As pessoas aprenderam – não sei onde – que quem se diverte, quem “se dá bem”, é quem sai na sexta-feira, fica bebendo até tarde, fica com outras pessoas e chega em casa sábado de manhã com ressaca. Nada contra quem faz isso. Mas toda vez que alguém me pergunta o que eu fiz na sexta-feira a noite e respondo que passei em casa vendo um filmezinho, mais um episódio de uma série ou só com minha família mesmo, as pessoas me olham com cara de compaixão. (Hein?)

Eu já falei em outros posts sobre como às vezes a vida pode parecer desanimada e etc. Mas gostar de ficar em casa não tem nada a ver com desânimo – ou pode até ter, mas não no meu caso.

Pela manhã eu também sou muito rabugento. Nem tente dialogar comigo antes das 10h. Tudo que você vai conseguir é um monte de respostas evasivas como “hum”, “que bom” e “legal”.

Muitas vezes eu já tentei ser algo diferente de quem eu sou hoje. Já tentei sair, conhecer pessoas, me divertir. Mas tudo que eu consegui foi uma boa dose de aborrecimento para todos e inclusive pra mim. O que alguém que detesta multidões e som alto vai fazer em uma balada? Um lugar onde, pasmem, só tem muita gente por metro quadrado e som alto (muito alto, aliás). Nessas ocasiões, acabava ficando no melhor lugar da festa: os puffs, com cara de bunda sem me divertir. E pior, quem vai chegar em alguém com a cara amarrada? O resultado era desastroso e tudo que eu conseguia imaginar era o momento em que chegaria em casa, ligaria o computador, faria um chá ou algo pra comer e relaxaria.

Eu não sei ao certo de onde surgiu minha indisposição para sair. Só sei que ela hoje é como o ânimo de alguém que tem 80 anos. Odeio lugares barulhentos, lugares com muita gente, assuntos ou compromissos inesperados (sejam bons ou ruins), qualquer coisa que quebre a minha expectativa diante da minha rotina pré-estabelecida mentalmente já é motivo de mau-humor (salvo alguns amigos). No fim de semana, tudo que eu quero é descansar e na maioria das vezes não fazer nada me deixa muito feliz. Compromissos inesperados ou que sei que vou ter sair um pouco do meu mundo já me deixam aborrecido.

 

WhatsApp se tornou algo extremamente irritante. É família, é amigo, trabalho, grupo de família e mais um monte de outras coisas que tentam me tirar da minha realidade perfeita – que consiste em eu, cama, travesseiro, computador e algo para comer.

Não sei dizer ao certo se existe algo de errado. Os outros podem pensar que é muita indisposição para alguém que aparenta ter lá seus 20 anos. Eu acredito que o mundo não se tornou um lugar com boas companhias. A gente se decepciona muito, apanha, enfrenta tantos problemas e crises. Eu acabei ficando cansado.

Algo que eu achei que poderia resolver com uma boa noite de sono, mas que depois percebi ser muito mais que isso.

Eu tenho preguiça de conhecer pessoas porque eu já conheço ótimas pessoas (conquistadas com muito esforço), tenho preguiça de me apaixonar (vamos sentar para tomar um chá e eu posso te explicar cada uma das minhas cicatrizes). Enfim. Tudo que exige muito de mim em relação ao mundo acaba sendo um pouco desanimador. Mas a culpa não é do mundo. Para ser sincero, eu adoro ele. A chuva, o movimento da cidade, um pôr do sol, olhar a lua. A culpa é das pessoas.

Eu só quero dizer que estou muito bem aqui no meu quarto, com a porta fechada, as luzes apagadas, escrevendo meus textos com os abajures acesos. Aqui ninguém vai me machucar – e eu não vão magoar ninguém. Aqui eu tenho minha tranquilidade, as coisas que eu gosto e tudo que me faz feliz enquanto os leões se devoram lá fora.

Mas se alguém aí estiver disposto, posso até pensar e sair daqui de dentro para tentar melhorar alguma coisa. Até lá, vou continuar com o meu velho espírito no lugar que chamo de lar pelo tempo que desejar.

Blogueiro, criador do Cronistas de Quarto, amante de chuva, música, cinema e passar horas no quarto rabiscando aventuras.

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