Como meus relacionamentos acabam.

Cronistas de Quarto - Relacionamento

Era um domingo à tarde e fazia muito calor. Estávamos deitados na varanda da casa dele. Era dia de mudança. Ele estava indo morar em outro lugar depois que o colega de quarto precisou mudar. Apenas uma semana juntos e parecia que já tinha vivido alguns meses ao seu lado.

Que horas são? Eu não sabia ao certo. Só me lembro que estava calor e que estávamos suados depois de tirar toda a mudança para fora. Ficamos deitados em um colchão jogado na varanda por algum tempo esperando pelo caminhão.

Tempo que mudou muita coisa.

Ele estava deitado ao meu lado, apenas de bermuda, pensativo enquanto olhava a rua.

Infelizmente, eu conhecia aquele olhar.

Já havia visto aquela expressão várias e várias vezes em outros relacionamentos. Um olhar distante, uma expressão profunda, beirando algo triste e reflexivo. A mesma expressão que todos usaram antes de tomar uma decisão. Naquele momento eu sabia que com ele não seria diferente.

Era uma tarde quente de domingo. Mesmo assim, rolei para o lado e o abracei um pouco. “Tudo bem, eu sei o que você está pensando. Não precisa se preocupar comigo. Eu sobrevivi perfeitamente bem a todas as vezes que isso aconteceu. Apenas faça o que você acha melhor”. Eu não disse isso, mas foi o que aquele abraço disse. Era uma despedida.

Talvez ele estivesse em dúvida naquele momento, mas eu já sabia o fim da história. Me assusta um pouco ver essa expressão, principalmente quando homens tão diferentes em sua identidade começaram a apresentá-la. Era algo que eu provocava neles. O pensamento, a reflexão, a dúvida. Eu sempre carreguei comigo a capacidade de fazer as pessoas ficarem frente a frente com seus medos. E o problema é que as pessoas nunca estão prontas para enfrentá-los.

Eu tentei conversar um pouco. E ele me disse uma frase que eu nunca esqueci. Talvez o que melhor revelasse os pensamentos por trás daquela expressão.

– Cansei de tentar entender a sua cabeça.

Essa frase saiu da sua boca, voou diretamente pra dentro de mim e se enraizou lá.

Poucos dias atrás, nós estávamos no ônibus. Eram 22h da noite e estávamos indo para casa dos pais dele na véspera de Natal. Ele queria um relacionamento, mas eu sabia o que isso significava. Alguns fantasmas ainda me assombravam. Mesmo assim, eu disse “Tudo bem. Vamos tentar. Quer namorar comigo?“.

Agora estamos aqui, beirando o fim apenas 7 dias depois.

Resolvi me levantar e me arrumar para ir embora. A tarde já estava acabando.

Depois que cheguei em casa, meu celular vibrou. Era uma mensagem dele. Eu também já sabia sobre o que era. Todos eles tiveram dificuldade de me olhar nos olhos para falar isso.

– Está esquisito.
– O quê?
– A gente.
– Quer terminar?
– Sim.
– Ok. É sempre mais fácil trocar que consertar.
– Eu sei, já pensei nisso.

Foi nossa última conversa.

Eu não fiquei surpreso. Estávamos nos conhecendo, e eu fiquei muito feliz por ainda não estar gostando dele. Mas fiquei triste, afinal, a gente tinha tanto potencial. Eu via ali uma oportunidade de ser feliz. E estaria disposto a lutar por ela. Mas as pessoas esperam que a felicidade venha e seja colocada do jeito que elas imaginam na palma de suas mãos.

Fechei o celular e fui comer alguma coisa. Só mais um término. Eu já estava me acostumando.

Meses depois recebi algumas mensagens:

– Oi.

– Oi.

– Tudo bem?

– Tudo e você?

– Bem. Vi aqui que seu número ainda está salvo como mor.

– É só trocar ou excluir.

Eu acreditava que nosso relacionamento poderia dar certo. Eu acredito que possa fazer alguém feliz. Eu poderia ter voltado a conversar, talvez até nos encontrarmos de novo. Mas não vale a pena insistir no erro. Principalmente quando corações estão em jogo. Passei por cima daquele sentimento de “talvez dessa vez dê certo”, e fiz algo que seria melhor pra mim.

Desliguei o celular e fui dormir.

 

Blogueiro, criador do Cronistas de Quarto, amante de chuva, música, cinema e passar horas no quarto rabiscando aventuras.

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