O peso da minha vida aos vinte e poucos anos.

Quando eu era criança, sonhava em ser biólogo.
Biólogo marinho, para ser mais exato.

Nunca segui esse sonho porque aqui onde eu moro, Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, não tem mar. Ou seja, eu teria que sair da cidade que eu tanto gosto, deixar meus pais e ir embora para outro lugar para seguir meu sonho. Mas nunca quis abrir mão da cidade que chamo de lar.

Quando eu era criança, o mundo parecia mais simples. Apenas crescer e trabalhar em algo que me faria feliz. Eu nunca imaginei que quando tivesse a idade que eu tenho hoje, estaria onde estou. Não estou no topo de nada, nem atingi o mais alto patamar do que eu faço. Mas me tornei alguém muito maior do que eu imaginei um dia e me sinto muito orgulhoso disso. Aos 22 anos, eu tenho um trabalho legal, meu nome ficou conhecido dentro da área. Muitas profissionais e empresários entram em contato comigo, pedem minha opinião, pedem minha ajuda e eu acabei por ganhar o status de ser conhecido como um dos melhores profissionais da minha área no mercado onde atuo. Eu sou muito grato por tudo isso.

Eu cresci e conquistei muitas coisas. A cobrança que a sociedade sempre faz em cima das pessoas me fez querer me preparar para tudo o quanto antes. Com 16 anos eu estava entrando na faculdade. Um ano depois, eu já trabalhava na área de comunicação.



Minha vida sempre foi basicamente muito trabalho, trabalho, estudos, trabalho.

Eu me afundei em um mundo que eu mesmo construí. Mas com o tempo, tudo isso começou a ficar pesado, denso, estressante, cheio de cobranças, cheio de situações para serem resolvidas. Aquela criança, que estava lá atrás, a mesma que queria ser bióloga, deixou de existir.

Mas, eu digo para você, hoje eu vejo que não é nada disso que eu quero. Frequentar lugares caros, comprar roupas de grife e andar com a elite. Não.

Eu não quero estar sempre discutindo sobre os melhores ramos para investir, sobre o sucesso dos empreendimentos que foram feitos em alguma região nova.

Eu não quero o apartamento caro na cobertura do prédio que fica na avenida mais cara da cidade. Eu não quero passar o resto da minha vida trabalhando para conquistar coisas que eu não quero e que nunca serão o suficiente porque ano que vem terão versões melhores e mais caras.

Em meio a correria dos meus dias eu passei a sentir falta de pequenas prazeres da vida. Coisas simples como poder ir para o parque tirar fotos em uma terça-feira de manhã. Ou quando eu chegava em casa e deitava no colo da minha mãe e ficávamos conversando horas enquanto ela alisava meu cabelo. Sinto falta de passar uma tarde brincando e dando banho no meu cachorro ou quando eu entrava em uma linha de ônibus nova sem saber o rumo, apenas pelo puro prazer de me aventurar.
Sinto falta de quando eu tinha tempo para passar o dia todo escrevendo sobre coisas que eu gosto.

Photo by Ishrak Sami on Unsplash

Hoje, eu acordo cedo, me arrumo e vou para o trabalho. Mal vejo meus pais e meus animais de estimação. Fico o dia todo no trabalho e saio no fim do dia direto para a academia. Chego em casa cansado, sento na minha mesa, respondo alguns e-mails, trabalho em outros projetos e começo a escrever algo novo. Não vi meus pais direito outra vez nem meus animais de estimação.

Quando eu fecho os olhos, eu penso na paz de uma vida simples.
Algum lugar antigo, com aquele toque do passado e da sabedoria acumulada pelos anos. Tons de marrom e verde escuros. Poeira em cima das estantes. Janelas de madeira antigas. Simplicidade nas paredes com fotografias que passam algum sentimento antigo. O som do despertador me lembrando de levantar e ir trabalhar em algo que me faz muito feliz e que me dá paz.

 

Eu desejo a simplicidade. O amor que se esconde nos detalhes.
É nesse mundo que uma parte de mim ainda vive. Não no atolado mundo corporativo, das cobranças que a família diz porque algum primo distante fez medicina e está ganhando rios de dinheiro.
Eu sempre fui muito cobrado pela minha família e pelos lugares que eu trabalhei a dar o melhor de mim. E que o que eu entrego precisa ser melhor no mês que vem.


Eu venho me sentindo cansado, estressado e desgastado.
Eu me lembro quando uma colega me disse “Todo mundo te acha fofo, Lair. Mas eu já sei que você é casca grossa”.
Infelizmente, ela estava certa. Onde eu cresci e vivi, não havia espaço para fofura e doçura.
Eu vejo muita gente da minha idade, e muita gente mais nova também, se cobrando por não estar trabalhando com o que gosta, ou porque ainda não está namorando, ou que a família tem dito o que eles devem ou não fazer.
Eu vejo pessoas frustradas antes do tempo, gente preocupada porque não consegue o que quer, porque acha que deveria ganhar mais dinheiro, ou ter um trabalho melhor…
Está tudo bem.

Via Tumblr

A vida não é um lugar fácil. A vida é um grande desafio onde a gente se deixa levar sempre pelo que as pessoas estão dizendo que a gente deveria fazer. Você não é bonito o suficiente, não é magro o suficiente, não tem um trabalho legal, suas fotos têm menos 100 likes no Instagram ou qualquer outro motivo idiota e sem sentido.

Eu só quero que você saiba que está tudo bem não ter conseguido ser quem você queria ser. Você já é alguém. E caso tivesse conquistado tudo o que queria, teria novos problemas para se preocupar. Porque problemas, novas crises e motivos para ficar para baixo nunca vão acabar.

Chegar cada vez mais longe, cansado, e continuar tendo a sensação de ter a vida escorrendo por entre seus dedos.
Pra mim, o que dói mais é ter deixado de ser quem eu era.

O garoto que no passado queria ser biólogo marinho e que via a vida de um jeito mais simples e mais fácil.
O mundo anda pesado para todo mundo e você deveria se cobrar menos pelo que está sentindo.

Nada é fácil, e reconhecer a sua fraqueza é primeiro passo para ser mais forte.

Blogueiro, criador do Cronistas de Quarto, amante de chuva, música, cinema e passar horas no quarto rabiscando aventuras.

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