Linhas estaduais

Semana passada eu entrei em um carro sem saber o destino.

Entrei seguindo minha intuição em direção a um momento.

Um pico, ápice.

O ponto de virada que nossas vidas convergem para algo que vai além do que se pode ver.

É como ter a alma sufocada pelas mãos de todos os amores falecidos. Aqueles que morreram aos poucos, aqueles que eu assassinei e aqueles que escolheram o fim.

É engraçado como almas velhas têm sede de vida, de aventura e do familiar gosto da alegria fugaz que duas vidas se entrelaçando proporcionam.

De certa forma, eu deixei de me preocupar com essas coisas mais pela frieza da consciência do que pelos prazeres do coração. A natureza nos ensina a nos auto preservar, mas já reparamos que não ligamos muito para o que ela tem para nos dizer. Não fazemos muito a linha dos animais preocupados com nossos instintos, agindo como loucos sentimentais.

O silencio quebrado de um coração ecoa por meses como um trovão que reverbera pelas paredes dos prédios em uma noite escura e tempestuosa. Não existe nada mais familiar que esse sentimento. É como reencontrar um parente distante e desagradável, mas que ainda assim você recebe de bom grado, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito.

Nada pode nos salvar agora.

A 80km/h eu sigo meu caminho, deixando para trás tudo aquilo que uma vez causou algum desconforto em mim. Para alguns isso se chama fuga, e para esses “alguns” eu digo: felicidade é uma fuga, amor é uma fuga, amizades, álcool, família, o abraço da sua mãe, uma viagem. Poucas coisas me fazem tão bem quanto ir para longe, em lugares onde as pessoas não me conhecem. Um lugar onde eu posso ser quem eu quiser, pois na breve existência dos homens, nossa identidade é apagada pelo tempo, nossa consciência se perde no infinito e tudo parece sem importância e significado.

Eu escolho me reinventar a cada novo ciclo, com um novo rosto, uma nova identidade. Um novo nome, pelo qual homens e deuses vão saber de quem se trata. Um nome que também vai ecoar por aí como um trovão em noites chuvosas. Essas transformações são necessárias para quem gosta de deixar a velha casca de lado, uma pele velha e cheia de cicatrizes, a habilidade de quem já aprendeu que o sofrimento é inevitável, mas que eu já encarei coisas piores enquanto tomava café da manhã. Não. Eu sou algo mais forte, maior e com um propósito. “Olhe para mim, olhe para você. Você acha mesmo que eu deveria estar sofrendo?”

Passando pelas linhas estaduais, em um sobe e desce pelos morros, montanhas e florestas, a paisagem me chama e me recebe de bom grado, como um velho amigo que esteve fora por muito tempo, mas que retorna para o lugar onde a alegria é verde e vivida como os campos, larga como o céu e as nuvens que pintam um cenário dourado acima de nós e firme como as grandes pedras e dão forma a terra.

Eu continuo perseguindo o pôr do sol, com infinitas possibilidades a minha frente, uma longa história sendo deixada a cada instante para trás.

Constante e mutável, como um serpente mordendo a própria cauda.

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