O texto das 8 horas.

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Às 8 horas.

Estávamos deitados no sofá.

Não era um desses momentos românticos de casal. Era um momento de confidencialidade mesclada com reflexão.

Apenas uma noite havia passado. Apenas um momento havia marcado.

Eu me virei para a janela onde o sol entrava tímido às 6 da manhã, e pensei em todos os momentos parecidos com aquele.

Às 8h, sairia para trabalhar.

Já havia assistido ao nascer e pôr do sol várias vezes, de janelas diferentes, em braços diferentes em épocas e fases ainda mais distantes. Ele havia dito que minha pele é macia, que meus lábios rosados são lindos. Me lembrei de todas as vezes que me elogiaram. Elogios nunca foram suficientes para que alguém ficasse, mas nunca haviam me dito aquelas palavras. Mais algumas para o repertório de coisas que já ouvi.

Ele se virou para o outro lado, e vi suas costas largas e algumas cicatrizes. Sua história, passado, conquistas, situações e identidades. Olhei para a minha pele marcada por ferimentos, cicatrizes, tatuagens, o local onde destronquei a junta do meu dedo da mão direita uma vez.

Muitas marcas do lado de fora. Ainda bem que ninguém pode ver as marcas de dentro.

Eu caminhei até aqui sozinho. Trompando em pessoas especiais, e outras nem tanto. Quando partiram, deixei que levassem um pouco de mim, e carrego comigo até hoje um pouco delas.

São minha identidade, quem eu sou e quem eu me tornei.

Ele se virou e me abraçou, perguntou se estava tudo bem.

“Vai ficar”, disse com um sorriso triste.

Aquele momento foi pequeno, mas era parte do mosaico de lembranças que carrego comigo. Um mosaico longo e estilhaçado.

Após cada relacionamento e cada coração conhecido, eu dizia a mim mesmo que levaria daquilo o meu melhor. Em outros momentos, dizia que jamais me permitira dar o meu coração outra vez. Isso, é claro, foi uma mentira que eu contei a mim mesmo durante a minha vida. Sempre havia alguém que se esgueirava por dentre as ruínas dos meus sentimentos e se instalava lá. Algumas vezes, foram pessoas dignas de serem amadas, outras, pessoas que se acharam no direito de partir sem olhar para trás. Era como dar a mão para alguém enquanto caminhava, até que essa pessoa te solta e segue em outro caminho sem olhar para trás e sua última lembrança é dela se afastando.

7 da manhã.

Ainda tinha uma hora.

Ele acordou e mandou uma mensagem para a irmã.

Enquanto conversava, eu me virei novamente para a janela.

Quem eu estava enganando? Quantas pessoas se deitaram ali, ao meu lado, e se tornaram uma vaga lembrança. Ele seria apenas mais um. Alguém em busca de carinho gratuito. De sentimentos sinceros que pudessem aquecer seu coração por uma noite.

Às 8 horas, me levantei e fui me arrumar. Ele começou a se vestir. Peguei uma roupa que fazia eu me sentir bem. Encontrei com ele no corredor e seguimos para ao lado de fora da casa, conversando. Chegamos ao nosso ponto de partida. Nos tocamos pela última vez.

Entrei no carro e fui para o trabalho.

Ele continuou sua caminhada pela calçada.

Dois estranhos em direções opostas, mas com histórias cruzadas.

Tudo terminou às 8 horas.

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